Composition 03


©ALEMOSPINTO’2009
Composition 03
90x90x4,5 cm
Acrílico s/tela
2008


Composition 02

©ALEMOSPINTO’2009
Composition 02
90x90x4,5 cm
Acrílico s/tela
2008

Composition 01

©ALEMOSPINTO’2009
Composition 01
90x90x4,5 cm
Acrílico s/tela
2008

Recensão Crítica

«Não trabalhe imitando a Natureza! A arte é abstracta. Extraia da Natureza sonhando com ela.»
Quando Paul Gauguin pronunciou estas palavras, no final do século XIX, falando com um jovem artista seu admirador, estava longe de poder aquilatar até que ponto a sua intuição sobre o devir da Arte estava correcta.
Na ocasião, ele apenas pretendia exprimir a sua convicção de que a Arte, sobretudo a pintura, não poderia limitar-se a representar e servir a Natureza, isto é, o mundo visível (embora lhe aproveitasse as formas), já que a riqueza interior do Homem, do seu Pensar, do seu Sentir, da sua Imaginação e da sua Emotividade/Sensibilidade, estava muito para além das potencialidades representativas das formas matéricas captadas pelos sentidos. Ora, eram essas vastas e inesgotáveis áreas do Espírito Humano, que Gauguin pretendia “revelar” na sua Arte, ultrapassando as aparências sensíveis, fugazes e ilusórias, e caminhando no sentido da Metafísica.
De facto, libertar-se das solicitações do mundo visível, quebrar o espelho do sensorial, do ilusórico, do matérico para atingir o espiritual, o autêntico, o imatérico ... foi o caminho trilhado para chegar à Arte Abstracta.
Contudo, após Gauguin, ainda foi preciso esperar por Kandinsky e por alguns outros vultos das gerações artísticas das primeiras duas décadas do século XX, para ver este conceito – que marcou uma das linhas evolutivas mais inovadoras da Arte desse século – exprimir-se em toda a sua plenitude.

Para assumir-se, a arte abstracta precisou realizar duas grandes “revoluções”, de igual transcendência: uma conceptual e filosófica; outra técnica e plástica.
A primeira consubstanciou-se no acto de encarar a actividade artística como expressão do espírito humano, das suas realidades (e irrealidades) puramente espirituais, sensitivas e/ou cognitivas, que não se exprimem por actos ou formas do visível; a segunda na procura de uma linguagem artística puramente plástica, finalmente liberta de qualquer relação com as coisas, os objectos ou as formas do mundo físico, matérico.
Essa nova linguagem reinventou a pintura, fazendo-a regressar, ou assentar, no seu valor primeiro e mais específico – a cor. Na pintura abstracta, a cor (ou a sua ausência) materializa-se sobre o plano da tela em manchas, linhas, pontos e planos que se (des)harmonizam em composições que, consoante as correntes e os autores, produzem efeitos visuais e plásticos que despertam, no observador, as mais variadas ideias, sensações, emoções, estados de espírito...
Esta “riqueza” expressiva da arte abstracta explodiu no pós Segunda Grande Guerra (principalmente nos EUA), com uma série de movimentos e correntes hoje comummente apelidados de “informalismos”. Na essência destes está a intenção da passagem imediata da expressão pela redução do processo criativo a um único acto – o da concepção-acção. A ideia criativa toma forma enquanto se executa; o braço que a executa é apenas um prolongamento do cérebro que a gera, sem faseamentos nem mediações. Exprimir o espírito no seu imediatismo é levar a arte abstracta à sua expressão mais pura e autêntica, ainda que isso implique uma simplificação radical do discurso técnico e até, por vezes, o seu primitivismo.


Nesta série de obras que André Lemos Pinto aqui nos apresenta encontramos o discurso técnico da pintura abstracta no seu grau mais depurado.
Eivadas de uma rarefacção abstracta que roça o minimalismo, as telas de A L P apontam para uma filosofia estética de grande conceptualismo, uma espécie de teosofia de cariz oriental, que vive da dialéctica e das tensões criadas entre signos/simbolos opostos – o negro e o branco; o cheio e o vazio; a cor e a sua ausência; o movimento da linha-mancha e a estaticidade do plano-fundo....
Estes “opostos” da linguagem visual e plástica funcionam como significantes ou equivalentes da linguagem simbólica – as ideias, as emoções, os impulsos matéricos e anímicos.
Na linguagem abstracta, mas expressiva, da pintura de André Lemos Pinto, a mancha cromática é o elemento primordial. Ela exprime a ideia nos seus valores tonais, primários, opostos e raramente puros (o branco é muitas vezes bege; o negro é frequentemente “esfumado”), adoçicando o contraste, amenizando a tensão que presidiu à ideia e procedeu à execução. Episodicamente, um apontamento de verdadeira cor (vermelho- fogo, amarelo-sol...) interrompe a monotonia sombria do discurso plástico, como um sopro de esperança entre o desespero, um grito de vida face à ideia da morte, um riso que nasce do choro, como por ironia...
A mancha cromática erra, aparentemente sem nexo, sobre a tela vazia, ao sabor do braço que comanda o pincel, ou irrompe, peremptórica, para se estancar de súbito. O seu movimento traduz descontinuidade, reflexão, desvario...A irregular fluidez da tinta (aqui fina e translúcida, ali espessa e opaca) faz pensar em imprecisão, indecisão...lampejos de coragem no seio do medo.
Como um equivalente(e um substituto) do discurso oral ou escrito, o discurso plástico evoluiu do figurativo para o sígnico, usando imagens visuais simples e directas, monossilábicas, como se “a quantidade, enquanto repetição, alterasse a qualidade enquanto unidade” (Argan).
Parente do Expressionismo Abstracto e do Espacialismo, a pintura de A L P reinterpreta/reinventa, neste limiar do século XXI, os anseios de um espírito amadurecido para a revelação estética.


Ana Lídia Pinto
Professora e Autora de livros sobre História da Arte
Nov. 2008